Transtornos de personalidade

 

guia de estudos

Professor José Waldo Saraiva Câmara Filho

 

 

 

Personalidade

 

Latim “persona

                        Aspectos do indivíduo percebidos pelos demais

 

Conceitos atuais

            Características imutáveis que individualizam as pessoas

                        Presentes desde a infância e adolescência, mantendo-se constantes ao longo da vida

            Integração de fatores

                        Biológicos

                        Psicológicos

                        Sociais

            Formada pelo caráter (aspectos cognitivos) + temperamento (aspectos afetivos e conativos)

            A personalidade ordena e organiza todo o comportamento

                        Trata-se da “essência” do indivíduo

            Conjunto de crenças, motivações, reações emocionais, padrões de pensamento e tendências de cada pessoa.

 

Psicopatologia da Personalidade

 

Kurt Schneider

            Normal seria o que está na média (sem referências a ideal de valor)

            Anormal estaria fora do “campo médio imaginável, não passível de exata determinação

            “Personalidades psicopáticas são aquelas que, em conseqüência de sua anormalidade, sofrem ou fazem a sociedade sofrer

            tipologia schneideriana:

                        hipertímicos, depressivos, inseguros de si, fanáticos, necessitados de valorização, lábeis de humor, explosivos, frios de sentimentos, abúlicos e astênicos

                        freqüentes superposições de tipos

            tratam-se de variações do normal e não doenças

            delimitações arbitrárias, mas práticas

 

Henry Ey

            Comprometimento do exercício da liberdade – refém de seus próprio traços, inflexíveis e permanentes

 

 

 

OMS CID 10

            Transtornos da Personalidade (F60 a F69)

 

  1. Padrões característicos e permanentes de experiências internas e comportamento do indivíduo como um todo que se desviam de forma marcante dos limites culturalmente esperados e aceitos (norma) nos aspectos (pelo menos em mais de um):

·        Cognitivos

·        Afetivos

·        Controle de impulsos

·        Maneira de se relacionar com o outro e manejar situações interpessoais

 

  1. Desvio “invasivo” na forma de comportamentos inflexíveis, mal-adaptativo ou não funcional a ampla série de situações sociais e pessoais.

 

  1. Angústia pessoal ou impacto social adverso, atribuíveis ao comportamento referido.

 

  1. Evidência de o desvio ser estável e de longa duração com início no final da infância ou adolescência.

 

Etiopatogenia

 

            Hereditariedade

            Constituição

            Ambiente

            Cultura

            Biologia

 

Epidemiologia

 

           

 

Tipos Clínicos

 

            Personalidade paranóide

a)      sensibilidade exagerada à contratempos e rejeições;

b)      tendência a guardar rancores persistentemente, isto é, recusam à perdoar aquilo que julgam como insultos ou desfeitas:

c)      desconfiança e tendência à interpretar erroneamente as experiências amistosas ou neutras;

d)      obstinado senso de direitos pessoais em desacordo com a situação real;

e)      suspeitas injustificáveis em relação à fidelidade (conjugal ou de amigos);

f)        autovalorização excessiva;

g)      pressuposições quanto à conspirações

 

 

Personalidade Esquizóide

 

a) um padrão de indiferença às relações sociais e uma variação pobre da expressão emocional;

b) indiferença aos sentimentos alheios;

c) questionamento, indisposição e desrespeito às normas e obrigações sociais;

d) pouco interesse em relações sexuais;

e) preferência quase invariável por atividades solitárias;

f) preocupação excessiva com fantasias e introspecção;

g) falta de amigos íntimos, relacionamentos confidentes e a falta de desejo de tais relacionamentos;

h) raramente vivenciam emoções fortes, como raiva e alegria;

i) indiferença a elogios e críticas.

 

 

 

 

Transtorno histriônico da personalidade

 

a) busca constante ou exigência de afirmação, aprovação ou elogios;

b) autodramatização, teatralidade e expressão exagerada das emoções;

c) alta sugestionabilidade, facilmente influenciada pelos outros ou por certas circunstâncias;

d) sedução inapropriada em aparência ou comportamento;

e) preocupação excessiva com a atratividade física;

f) expressão de emoções exageradamente;

g) expressão de emoções rapidamente mutável;

h) egocentrismo nas satisfações;

i) intolerância severa às frustrações e à não-satisfação;

j) discurso impressionista e superficial.

 

 

 

 

Transtorno ansioso da personalidade

 

a) sentimentos persistentes e invasivos de tensão e apreensão;

b) crença constante de ser socialmente inepto, pessoalmente desinteressante ou inferior aos demais;

c) preocupação excessiva em ser criticado ou rejeitado em situações sociais;

d) relutância em se envolver com pessoas, a não ser quando absolutamente certo de ser apreciado;

e) restrições ao estilo de vida devida à necessidade de segurança física;

f) esquiva de atividades sociais e ocupacionais que envolvam contacto interpessoal significativo por medo de opiniões a seu respeito.

 

 

Transtorno anancástico da personalidade

 

a) sentimentos de dúvida e cautela exagerados;

b) preocupação com detalhes, regras listas, ordem, organização e esquemas;

c) perfeccionismo que interfere na conclusão de tarefas;

d) escrupulosidade excessiva com a produtividade, concomitante à quase exclusão do prazer e de relações sociais;

e) aderência excessiva a algumas convenções sociais e pedantismo;

f) inflexibilidade, rigidez e teimosia;

g) insistência para que os outros se submetam aos seus conceitos de valor em relação à maneira de fazer as coisas;

h) evitam tomar decisões acreditando haver sempre outras prioridades;

i) dificuldade em descartar-se de objetos usados.

j) insistência não razoável para que os outros se submetam exatamente à sua maneira de fazer as coisas ou relutância não razoável em permitir que outros façam as coisas.

 

 

 

Transtorno dependente da personalidade

 

a)           Encorajar ou permitir que outros tomem a maioria das decisões importantes da vida do indivíduo;

b)           Subordinação de suas necessidades àquelas dos outros dos quais é dependente e aquiescência indevida aos desejos destes;

c)           Relutância em fazer exigências, ainda que razoáveis, às pessoas das quais o indivíduo depende;

d)           Sentimento de desconforto ou desamparo quando sozinho por causa de medos exagerados de incapacidade de cuidar de si próprio;

e)           Preocupação com medos de ser deixado para cuidar de si próprio;

f)             Capacidade limitada de tomar decisões cotidianas sem uma quantidade excessiva de conselhos e reasseguramento pelos outros.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Transtorno de Personalidade Anti-Social

 

a)      Indiferença insensível pelos sentimentos alheios;

b)      Atitude flagrante e persistente de irresponsabilidade e desrespeito por normas, regras e obrigações sociais;

c)      Incapacidade de manter relacionamentos duradouros, embora não haja dificuldade em estabelecê-los;

d)      Muito baixa tolerância a frustrações e um baixo limiar para a descarga de agressão, incluindo violência;

e)      Incapacidade de experimentar culpa e de aprender com experiências adversas, particularmente punição;

f)        Propensão marcante para culpar os outros ou para oferecer racionalizações plausíveis para o comportamento que trouxe o indivíduo a conflito com a sociedade

 

 

 

 

Transtorno de Personalidade Emocionalmente instável

 

Tipo Borderline

a)      Perturbações e incerteza sobre a auto-imagem, metas e preferências internas (incluindo a sexual);

b)      Risco de se envolver em relacionamentos intensos e instáveis, freqüentemente levando a crises emocionais;

c)      Esforços excessivos para evitar o abandono;

d)      Ameaças ou atos recorrentes de dano a si próprio;

e)      Sentimentos crônicos de vazio

 

Tipo Impulsivo

f)        Tendência marcante a agir inesperadamente e sem consideração das conseqüências;

g)      Tendência marcante a comportamento querelante e a conflitos com os outros, especialmente quando atos impulsivos são impedidos ou criticados;

h)      Risco de acessos de raiva ou violência, com incapacidade de controlar as explosões de comportamento resultantes;

i)        Dificuldade em manter qualquer curso de ação que não ofereça gratificação imediata;

j)        Humor instável e caprichoso

 

 

 

 

 

 

 

Transtorno de personalidade anti-social

 

 

Etiopatogenia

            O inato e o adquirido

            Os sinais

 

Epidemiologia

            3% dos homens

            3x mais freqüentes no homem

 

Clínica

            Desrespeito e indiferença às normas, direitos e sentimentos dos outros.

            Inadaptação social

            Ao exame: ansiedade mínima, sedução, pouca resposta a estímulos emocionais.

            Diagnóstico biográfico

            Encanto superficial e manipulação

            Facilmente se entediam – busca por novidade e novas sensações

            Alerta a possibilidades de recompensa

            Impulsivos

            Dificuldade de evitar situações que possam gerar punição

            Vida de fantasia

            Mentiras sistemáticas

            Ausência de sentimentos afetuosos e amoralidade

            Ausência de empatia e coisificação do outro

            Racionalização das atitudes

            Incorrigibilidade

            Abuso de substâncias

            Evolução com a idade (declínio das atividades, não do funcionamento)

           

           

Tratamento

            Raramente procuram espontaneamente o tratamento

            Medicamentoso

            Social

            Psicoterápico

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Transtorno de personalidade borderline

 

 

Etiopatogenia

            Limites entre o normal e o insano

            Fronteira do neurótico e o psicótico

                        Otto Kernberg:

                                   Fracasso em alcançar identidade estável

                                   Capacidade de teste da realidade intacta (perdas transitórias)

                                   Mecanismos de defesa primitivos

            Fronteira com a esquizofrenia

            DSM e CID: Entidade categoricamente distinta

 

            Distúrbio nas fases de separação e individuação mãe/filho

            Abusos físico, sexual e emocional

            Mecanismos de defesa

            Negligência e pobre expressão/comunicação afetiva dos pais

 

 

Epidemiologia

            O mais comum

            1/3 dos transtornos de personalidade

            2-4% da população geral

            10% da população de consultório, 20% da população internada

            ♀ > ♂

 

Clínica

            Baixa auto-estima e auto-imagem

            Dependência de relacionamentos

            Expectativas de vir a ser explorado ou maltratado

            Relacionamentos intensos e instáveis

            Medo crônico do abandono

            Sentimentos de vazio e mal estar interno

            Tendência a reagir com dramaticidade e impulsividade autodestrutiva

            Humor extremamente reativo

            Comorbidades

            Risco de suicídio (10%) e automutilação

            Visão negativa de si próprios

            Tendência à adição

            Sintomas psicóticos (dissociativos)

 

Tratamento

            Médico

            Psicoterapias

                        Grupo, Família, Individual.